Sobre o milagre económico<br> de Pires de Lima

José Alberto Lourenço

Na semana passada, na sua intervenção no debate do estado da nação, o ministro da Economia Pires de Lima manipulou os números da evolução das exportações, utilizou a redução «artificial» da taxa de desemprego e uma aparente inversão na evolução do investimento e do consumo privado, após vários trimestres seguidos em queda, para se sair com esta: «Que orgulho eu tenho na economia portuguesa».

As centenas de milhares e milhares de portugueses que perderam o seu emprego nos últimos três anos, os milhares e milhares de micro pequenos e médios empresários que se viram forçados a encerrar portas neste período, as centenas de milhares de portugueses forçados a emigrar, os mais de quinhentos mil portugueses que caíram na pobreza, os mais de seiscentos mil funcionários públicos a quem foram roubados direitos e cortado em média cerca de ¼ do seu salário, os cerca de três milhões de reformados e pensionistas que viram as suas pensões congeladas, os cerca de 450 mil reformados e pensionistas a quem foram cortadas as pensões, obrigados a pagar uma contribuição extraordinária de solidariedade e uma contribuição extraordinária sobre o IRS e as centenas de milhares de agregados familiares de trabalhadores que viram o seu IRS subir cerca de 30% e sofreram cortes nas prestações sociais familiares, perguntar-se-ão: como é possível este Sr. orgulhar-se do resultado de destruição a que conduziram as políticas que este Governo, no seguimento do pacto de agressão assinado por PS, PSD e CDS, levou à prática nos últimos três anos?

Voltando aos números sobre as exportações, o Sr. ministro escolheu os que melhor lhe serviam para fundamentar o seu discurso do milagre económico, esquecendo-se de referir que o ritmo das exportações de bens está em queda há vários meses, que nem todos os bens e serviços têm o mesmo peso nas exportações e que com honrosas excepções os grupos de produtos com maior peso nas nossas exportações ou estão a evoluir negativamente ou estão em forte desaceleração – combustíveis (-38,3%), minérios e metais (-5,5%), máquinas (0,3%), madeira, cortiça e papel (0,5%). Mas ainda não contente com os resultados que ia desfiando decidiu mentir de forma grosseira ao referir que as exportações no seu conjunto aumentaram 30% nos últimos dois anos, quando o seu crescimento acumulado foi de 9,6% neste período, apenas 1/3 daquilo que referiu.

Por outro lado, se nos quatro primeiros meses do ano as exportações de bens e serviços aumentaram 1,9%, também é verdade que as exportações de bens caíram neste período 0,2% e só as exportações de serviços, que cresceram 5,8%, impediram que as exportações de bens e serviços tivessem caído entre Janeiro e Abril de 2014 comparativamente ao mesmo período de 2013.

À medida que as eleições se vão aproximando iremos assistir cada vez mais a episódios destes que visam, repetindo até à exaustão mentiras e meias verdades, branquear e justificar como inevitáveis as políticas que prosseguiram e, se conseguirem levar a água ao seu moinho, continuarem por muitos mais anos estas políticas de empobrecimento do povo e dos trabalhadores, pela contínua transferência de rendimentos do trabalho para o capital, pelo prosseguimento das privatizações, pelo aprofundamento da destruição do aparelho produtivo e do ataque aos direitos dos trabalhadores, pela crescente precarização do trabalho e pelo semear de divisões entre trabalhadores do sector público e privado, entre trabalhadores jovens e menos jovens, entre trabalhadores empregados e desempregados, entre trabalhadores no activo e reformados.

O que se passou no último estado da nação chama-nos à atenção para aquilo que se avizinha por parte deste Governo: um discurso de mentira, de propaganda, de demagogia e de silenciamento.

 



Mais artigos de: Argumentos

Lixos

Antes mesmo que alguma imprensa diária não desportiva no-lo tivesse informado, já a televisão nos havia dado conta, digamos assim, de protestos por parte de residentes numa das ruas do centro da capital: tratava-se do elevado número de cidadãos ditos «sem-abrigo» que...

O herói colectivo

Estivemos há dias na Casa do Alentejo a apresentar o livro: «A CUF no Barreiro, Realidades, Mitos e Contradições», e vieram-nos à memória vincadas recordações da juventude, dos animados bailaricos naquelas salas lindíssimas, ao som notável da...